domingo, 30 de maio de 2010

Gritos Interiores

Berros e alucinações
pesadelos de todo o tipo
sonhos mortos na gaveta
vida morta em um corpo
vida toda minha.

Socorros
ajudas
e berros de sofrimento
sou eu berrando por dentro
sou eu agonizante
sofredor de tanta dor.

Sou a agonia em pessoa
pousada em mundo para sofrer
nunca tive um bom prazer
só o desprazer de ser eu.

Instantes febris de dor agônica
palavras gaguejadas altas
palavras que não saem da boca
o grito interno consumidor
como fogo em madeira seca.

Eu grito internamente
e ninguém ouve meu sofrer
fico aguentando calado
até não suportar e surtar de vez
ser considerado um doente emocional.

O Eu Morto

Uma rua escura
aonde posso andar
refletir a vida
num escuro ressonante.

Chuva fina cai
numa vertigem temporal
única e sincera
neste mundo falso de mentiras.

Ante berros de meus eus
compadecentes nas vidas minhas
ouço meus interiores diversos
como por socorro pedindo.

Ante prantos caindo
multiplicadamente
vejo que morri mais uma vez
num tempo de triste solidão.

O céu para mim padece
como se fosse o fim de tudo
como que tudo não valesse nada.

Este é o fim de mais um eu
na rua escura da solidão
no tempo divino para ela
onde perco mais uma de minhas vidas.

Um Torto

Num mundo de certezas
eu sou o mais incerto
a engrenagem torta do mundo
a rosca sem parafuso.

Sou o dito pelo não dito
confuso assim mesmo sempre
como louco sem família
sem casa
sem nada.

Sou o errado do certo
o doce feito de sal
salina para engorda
um palhaço a chorar.

Sou realmente a mentira
de um mundo que gosta
e goza de toda a verdade
sem pudor nem errâncias
apenas vivendo o banal.

O Tal do Fim do Mundo

A sina do mundo é o fim
como se acabasse o eterno
se morresse o imortal
se acabasse o inacabado.

Triste mundo complicado
com tamanha sina
não consegue
e nem pode relaxar.

Pois o triste fim que se espera
pode nunca acontecer
pode nunca mesmo chegar.

Vida Minha

Dizem para mim
coisas falsas
para me fazer sorrir
mas que me faz chorar.

Dizem-me para sorrir
pois isso é o remédio
para qualquer dor
mas prefiro ser
um maldito hipocondríaco
ao invés de ser lesado.

Mas me dizem tanta asneira
para me mudar
mudar meus jeitos
meus trejeitos
mas nem sequer eu ouço
mas nem sequer dou bola.

No fim das contas
vivo minha vida
sorrindo ou não
chorando ou não
o que importa é que é verdadeira.

Depois da Morte

E o sol não tem mais luz
além da morte, além da dor
nada tem sentido numa morte
numa vida que já morreu.

Nada tem razão
nada tem emoção
a vida passou rápida demais
a morte chegou de uma vez.

Na morte nada há
não há o que se viver
não há o que se dizer
além de apenas um
-morri!

Não há nada na morte
além de uma vida eterna
que pode se chamar de morte.

Vento da Morte

O vento assopra a morte
que vem voando por aí
sem medo de matar
sem medo de morrer.

A morte vem com o vento
em carona maldita
em rápidas velocidades
como quem primeiro
quer à algum lugar chegar.

No paradigma do vento morto
instiga-me a morrer junto
como morte súbita
num único vento rasteiro
para me levar morto.

Vem o vento morto
numa rapidez luxiática
rumo a alguém
rumo a uma morte certa.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Cartas

Cartas guardadas
rasgadas
jogadas à mesa
sem sentidos
sem noções.

Cartas rasgadas
amassadas
choradas tantas vezes
e no lixo jogadas mais vezes
cartas.

Não mandadas
nem chegadas
nunca vistas
cartas.

Choradas
rasgadas
amassadas
jogadas
cartas.

sábado, 22 de maio de 2010

O Hediondo

E o hediondo acontece
no meio da rua deserta
a morte de um infeliz.

Ninguém assiste
o teatro do absurdo
a queda de um forte
o inevitável da morte.

Um caído
na guerra da vida
na morte eminente
na vida após vida.

Um destino incerto
espera-o para sempre
e sem temer ele vai.

O Balconista

Abrir garrafas
pôr em copos bebidas
o hediondo do balconista.

Matar aos poucos seus clientes
assassino convicto
da sociedade nacional.

O veneno dentro do litro
misturas mágicas de ervas
falsas alegrias dentro da garrafa.

Hediondo o balconista do bar
o único que mata
sem nem mesmo ser condenado.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Festejos da Morte

E eu vou com a morte festejar
o enterro de minha última dor
o sofrimento que também se foi
o amor de nunca mais.

Cantarolando
subindo aos céus
vou sorridente pela morte
pois o castigo da vida acabou.

Pois vou festejar
o enterro de meu sofrimento
o enterro de mim mesmo
enfim a dor acabou
foi para o caixão
comida pelos bichos esfomeados.

Enfim a morte chegou
enfim eu me vou
enfim o resto ficou
sobrando apenas eu
para festejar.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A Última Obra do Artista

E a última pintura
do artista
foi a morte própria
manchada na tela
da cor vermelha
de sangue puro
de artista morto.

Tão realista
a última obra do artista
que toca qualquer um
que quer ver arte
a flor da pele
no último pingo de sangue.

Mas é apenas uma mancha
vermelha da cor do sangue
de um morto artista
que morreu fazendo a obra.

Mas é apenas uma pintura
vermelha na cor do sangue
puro de um artista morto
sem defesa.

Pois esta obra é sangue
de puro artista morto
fazendo sua última obra
a obra de sua morte.

Um Sentimento Sem Sentido

Não sei o que sinto
por uma pessoa certa
como certeza incerta
na triste certeza do amor.

Mas o que sinto não há
descrições claras e distintas
não explicações em livros de
história
geografia
português
matemática
biologia.

Pois o que sinto é
algo sem sentido nenhum
pois eu mesmo não sei
se sinto algo por ela.
Sempre sei que
nunca sei de mim
tão completo
como sempre quis.

Sei que pouco serei
se é que algo serei
se é que viverei até lá.

Pois eu sou o só
sozinhamente
poeto como poeta
escrevendo o que penso
mesmo sem pensar.

Pois sou único como todos
e todos são iguais como uns
e assim eu não serei
pois sou diferente de tudo.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Uma Noite

E na noite tudo ocorre
deste de simples coisas
até o incesto
pornografias.

Não se espante com o
espantoso
pois o mesmo é normal
e não há razão para tremer.

Pois na noite de tudo há
e sem medo de viver
na hedionda noite
dos botecos abertos
para o último gole do dia
para o primeiro talvez.

Não tenha medo das luzes
da grande cidade que é
pois um bom vampiro urbano
sabe viver com total claridade.

Não se assuste com tais coisas
pois amanhã de manhã
tudo clareia como sempre
tudo acaba como se deve.
Eu
esqueleto humano como todos
envolto por carnes e gorduras
nervos, órgãos, pele e pelos
vivo como máquina divina
mesmo não sendo assim.

Sou uma máquina vencida
detonada
destruída
ultrapassada
que não tem mais o que fazer.

Mas continuo vivo
como por insistência única
de alguém que não quer
me desativar ainda.

Sou uma máquina detonada
que continua viva
que continua a trabalhar
sem nenhum descanso.

Senhor da Morte

Eu andava ante a morte
no cemitério dos mortos
como senhor dos mortos
Plutão renascido
nova versão de Hades.

Eu andava entre mortos
esqueletos descobertos
numa noite fria
esquecida no tempo
até no calendário.

Ando como único
triunfoso maldito
entre os corpos carnicentos
entre os odores da morte.

Sou um chefe dos mortos
mesmo sendo mentira isso
mesmo eu não tendo poder.

Ando por entre caixões
de cores diversas
branco
preto
marfim
mogno
verde!

Ando por entre todos
que um dia viveram uma vida
aterrorizante ou não
que um dia morreram uma morte
digna ou não.

Poesia Póstuma de um Poeta Quase Morto, Quase Vivo

Espero nunca ser
póstumo em vida
pois deve ser ruim
agonizante
ser morto em vida
morrer vivendo
viver morrendo.

Não quero ser
um caixão ambulante
perambulante pelas ruas
assustadoramente
convencido de estar vivo
mesmo estando morto.

Pois é agonia viver assim
pois é agonia morrer assim
pois não quero ser
o tal zumbi perambulante.

Pois se for para morrer
que seja por completo
corpo e alma enterrados.

Pois se for para viver
que seja por inteiro
corpo e alma andantes.

Pois nem morto
quero ser um vivo-morto
ou ser um morto-vivo.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Sobre Pensamentos

O pensamento é uma loucura
creio eu
que vagueia pela mente
podre dos desocupados
ou pela mente boba dos poetas.

Mais rápido que eletricidade
mais rápido que luz de dia
o pensamento voa
por entre pés de neurônios
ávidos por energias cerebrais.

Penso
porquê pensar?
Mas sei que
"Penso, logo existo!"
e ao mesmo tempo me calo.

Vivo pensando
dormindo no ponto
pois penso sim
sempre assim.

Penso, logo existo
penso, enfim desisto
e paro de pensar.
suportar o que não se suporta
sina de amante poeta
devaneios lúgubres de poesias
entre versos tristes e de morte.

Triste sina de poeta
amar sem ser amado
mentir um triste amor
e chorar pelo verdadeiro.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Meu Último Grito

O último grito de minha vida
será aquele do suspiro
tão romântico na morte
como um eterno amor na vida.

Não pedirei socorro
nem que me levem
será apenas um ruído
tal forte
que ninguém poderá ouvir
o som de meu último grito.

Será o grito artístico
de um poeta morto
pronto para embalar
no caixão de madeira.

Meu último grito será talvez
poesia dadaísta
criada na hora
e copiada em livros
de toda a sorte
como minha última poesia.

Sem mesmo sequer desesperos
vou gritar mais forte
meu último grito
um grito desejável
representando
todas as minhas desgraças
e todas as minhas alegrias.

Será um grito vazio
frio
suspiro azedo
e doce ao mesmo tempo
pois será meu último grito
o grito de minha dor
eterna até a morte.

Pensamentos num Cemitério

Um cemitério
e diante dele gente morta
pois a terra é a gravida
as avessas
que que faz perder ao invés de ganhar
mas no fundo sempre nos ganha.

Sepultamentos quantos aqui!
Mortos de todas as datas
cores
estilos
religiões.

Vejo minha próxima morada
comprada em parcelas mínimas
pagas pela própria vida
hedionda de um quase morto.

Cruzes
sepulturas
vidas enterradas
paraíso ao paleontólogo
inferno talvez
aos que aqui jazeram em vida
dentro de um caixão.

Pois se o melhor de todos
os paletós que conheço
se deteriora com o simples tempo
de enterramento
então...
para que bonito se vestir?

Confesso que a idéia me assombra
mas em que pensar num cemitério?
Melhor fazer o último censo da morte
para ver quantos há mortos aqui
contar até morrer de contar
na triste ironia de um cemitério.

Me resta apenas pensar na morte
e no plano funerário atrasado
morrer com nome limpo
ou sujo mesmo?
Quem se importa?

Precavimentos de Mamãe

"Não se deve brincar
com a morte, menino"
Dizia a mãe precavida
como se algo acontecesse
amanhã ou depois.

"Um dia há de chegar
tua única vez na vida
e não adiantará chorar!"
Mamãe sempre assim
como se morte fosse
terrívelmente terrível.

Só não lembrava mamãe
que todos passarão
cedo ou tarde por este estágio
sem saber para aonde ir.

Pois mamãe precavida
quer apenas advertir
pra o que depois vem
e não há como escapar.

Almas Vazias

É tempo de ossos duros
mortes na certa
é tempo da festa morta
do morto vivo
dos vencidos pela própria vida.

Abra a garrafa e
bebemos juntos pois
nada mais resta para nós.

O que nos resta agora
é a morte eterna
tão glorificada agora
pois podemos enfim festejar.

Almas vazias somos
e não temos direitos divinos
temos apenas o direito de viver
essa eterna morte que nos convém.

Abra pois a garrafa
que estou com sede
sede para festejar
minha última data de vivo
meu aniversário de morte
pois a vida começa aqui.

Abra pois a garrafa
pois nossa alma é vazia
e temos direitos a festejar.

Esqueça nosso corpo
pois agora somos fumaça
e podemos ir como quiser
somos fantasmas
almas vazias penadas.

Não há matéria para nós
neste mundo de matéria
somos insubstâncias
e assim seremos
para toda a morte eterna.

Ballet Estudantil

Pular muros e cerquinhas
correr entre diretores
no longo corredor polonês
correr para o recreio
é o ballet estudantil.

Escrever no último instante
como última coisa a fazer
como se fosse mesmo
a última da vida
é o passo desse ballet.

Filas sorridentes enfrentar
da cantina
da sopa
aliás, deliciosa sopa
para correndo comer.

Escadarias correndo subir
entre berros da regente
diretora uníssona
em berros amedrontosos
ballet estudantil.

Por fim fugir
de todos os trabalhos
tirar azul em tudo
e não ter nenhuma anotação
no assustador caderninho
triste sina
de um passista
de ballet estudantil.

Apenas Caí

Caí morto no chão
como pássaro ferido
perdido pela própria vida
azarado pela própria natureza.

Caí por terra neste chão
como bola de boliche
indo para o strike
derradeiro das garrafas.

Apenas caí
sem chão
sem terra
sem nada.

Como burro soqueado
na cabeça
babei caí
sem sequer nada saber.

Como baleado na favela
traficante
policial
do alto do barraco
indo direto ao pé do morro
caí morto ao chão.

Caí como cai
aritmética na prova
de português
desastre total
das disciplinas
indisciplinadas.

Como balão de São João
em casa de palha
queimando muito
tudo.

Só sei que caí
como terra
em cima de indigente
feito nada ao mesmo tempo.

Só sei que caí
como tudo que sobe desce
ou cai
só sei que caí
como papelzinho
jogado indiscretamente
fora do lixo
da janela do carro.

Apenas caí
como tudo um dia cai
e depois talvez sobe
ou fica caído sempre
até alguém levantar
apenas caí.

Velho Bandolim

Velho bandolim
que já em guerras tocou
tocou fados desiludidos
na terrinha Portugal
já tocou modas diversas
e tocou coisas sem muita noção
de afinação.

Velho bandolim
que já fez parte da banda
e hoje tal esquecido
enriquecido numa parede
como troféu de ganho
apenas de enfeite sem valor.

Quantas cordas
tú bandolim
já não teve?

Agora não toca mais
é apenas enfeite caro
numa loja de velhos
instrumentos musicais.

Mas se eu compro
esse bandolim...

Mais um Livro

Mais um livro perdido
lembranças de algo que passou
passado mal lembrado
algo que não deve ser lembrado.

Um livro antigo dado
pelo antigo
e doloroso amor
escondido
engavetado
esquecido
graças a Deus.

Um livro não lembrado
devaneios amorosos
numa única literatura viva
sem páginas de alegria
sem histórias de amor.

Apenas um livro
empoeirado
esquecido
embolorado
pela vida marcado
pelo tempo marcado
peça discórdia marcado
apenas mais um livro.

Eco da Voz

Minha voz ecoa de tal forma
que sinto ela longe
sendo repetida várias vezes
refletindo meus desejos
sentimentos.

A voz que berro alto
de dor
tristeza
ecoa para todos os lados
mais longe que tudo
mais rápido que tudo
que não posso alcançá-la.

Encolho meus lábios
para mais nada sair
para besteiras não falar
para besteiras não ouvir.

domingo, 16 de maio de 2010

Alucinações de um Poeta

Alucinações tremendamente loucas
atingem meu encéfalo até cair por terra
fico grogue em pensamento únicos
sem jeito de algo certo pensar.

Como se alucinógenos consumisse
penso que coisa vãs e profanas
traindo a minha própria crença
que devo crer para existir.

Meu cérebro se cansa de alucinações
é hora de parar com os loucos sonhos
é hora de pensar racionalmente
para não correr o risco de ser um louco.

Vivo pensando em coisas hediondas
que traem o meu próprio jeito de ser
que traem o meu próprio jeito de agir
e me fazem em tudo isso refletir.

Alucinações sem sequer ter sentidos
que fazem jus a loucura total de poeta
que refletem minha frágil saúde mental
e me deixam cada vez mais transtornado.

Sina de Poeta

Ser um falso
triste sina minha
de fingir sentimentos
alheios dos outros.

Mentir para todos
é o que faço
sempre
pois esta é a função
do poeta das letras.

Mentir a mim mesmo
sentimentos diversos
fingir que sinto
o que nem sinto
e como queria sentir
tudo o que digo que sinto.

Pois sou mais um erro
vindo do céu para este mundo
sem sequer verdades dizer
fingindo sempre e mais
e não obstante
digo mentiras.

Como queria tudo isso sentir
saber a pura verdade
dos que sentem o que digo
sentir a indignação desta poesia
como se eu estivesse mesmo
indignado.

O Falso Verdadeiro

Sou eu
sem sequer ser eu
querendo ser eu.

Feito um
estorninho-de-hildebrandt
em meio pardais esfomeados
comendo pedaços de milho
comendo quirerinha
no meio da praça.

Sou diferente de tudo
e igual perante lei
dos homens
de Deus
de todos
pois obrigado sou seguir
o que é dos outros
sem eu ser o outro.

Sou eu dentro
sou outro por fora
sou quem nunca quis ser
e sempre serei o quis ser.

Como lampejo
de dupla ou tripla
personalidade
sou falso e verdadeiro
pois engano a mim mesmo
e me falo a verdade
diante de outros.

Um confuso lampejo de dois
em que eu brigo comigo mesmo
em que eu me corrompo
em que eu me destruo
não aguento mais isso.

Máquina Ser Humano

Na incontinência do ser humano
nada é mesmo de bom proveito
nada na real serve a alguém
não humano.

Pois que ser é esse
chamado ser humano
que tudo constrói
que tudo destrói.

Este ser sem vida
este ser máquina viva
sem mesmo sentimentos reais
sem sequer amor ao amor.

Este ser inescrúpulo
com tudo
e sem nada
e sem nada dizer.

Raiva de ser ser humano
de ser eu mesmo aqui e agora
e amanhã e ontem também
vergonha de ser esta máquina
com vida impura
feita para o paraíso destruir.

Meu Nada

Vou para o nirvana
para nada virar
para estrela virar
para cosmos virar.

Pois vida não tenho
pois morte não tenho
pois isso e aquilo não tenho
pois nada é meu de verdade.

Vou para o nada
e nada virar
e nada ser
como aqui já sou
pois vou para lá.
Correr
cantar
sorrir
dançar
matar
morrer
viver
o que quero
o que quis
o que vou querer?

Vidas secas
secas mortas
sem razões
sem mentes
sem nada dizer
declarar
morrer.

Vida uma
una
vida
morta
morta vida
em canção
na noite esplêndida de meu bem
morta na cama
na casa
geladeira
morrida.

Corridas na casa branca
branca de neve
sete anões
seis
cinco
quatro
três
dois
um
mortes.

Sem medo
razões
senso prático teórico da vida.

Amar o que?
Viver o que?
Dizer o que?
Vou aqui
ali acolá
sem nada saber
sem nada viver
eu vou.

Algo Dizer

Mas um dia vou
cantarolar
alegrias
vidas sozinhas
músicas folk
qualquer coisa
para não ser mudo.

Vou cantarolar até
enjoar
se enjoar
se morrer
se eu morrer.

Vou poetar
cantarolar
cantar poesias
cantar algo
para mudo não morrer.

Pois minha mudez me mata
pois minha mudez me absorve
pois tenho vontade de dizer
vontade de gritar
vontade de
cantar.

Queria soltar a voz
queria dizer algo
qualquer coisa
qualquer coisa mesmo
queria apenas
abrir a boca
e algo dizer.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Onde estão eles?

E onde estão eles agora
armados até os dentes
todos pra me prender?

E onde estão aqueles
que me mandam calar
e me deixam mudo?

Eles fugiram?
Eles morreram?
Desistiram?

Onde estão os guerreiros
de longas datas
para me calar a boca
para silenciar meu peito
para acabar comigo?

Eles fugiram
eles correram
se intimidaram
com a tal vitória
com a tal liberdade.

Eles se foram
eles não voltam mais
nunca mais.

Albúm de Família

E lá está no albúm de família
fotos concretas imaginárias
de tanta gente desconhecida.

Aviadores mestres
jogadores de futebol
aprendizes meliantes
cantores poetas
todos mortos
todos enterrados
todos acabados.

Costureiras fazendeiras
dançarinas atrizes
analfabetas amantes
endiabradas encantadoras
mortas enterradas
acabadas.

Tudo num albúm de família
o livro de todos
o livro do passado
o livro dos mortos.

Mundo Descartável

E o mundo é um caos
pois nada direito funciona
pois nada que é moderno funciona
pois tudo hoje é lixo
pois veio do lixo
e irá pro lixo.

O mundo é descartável
descartado
para tantos outros mundos
pois o mundo é lixo
resíduos inúteis
para todos.

Pois a Terra é imprestável
insolúvel
intragável.

Pois o mundo é nada
pois a Terra é nada
pois nós mesmos somos nada.

terça-feira, 11 de maio de 2010

O Caminho

O caminho
o caminhante
o caminhar
a vida longa
de vidas.

Andando andante
sem nunca
parar
sem morrer
até a morte certa
incerta
sem certezas.

Ir
nada seguir
seguir o nada
voar
se esborrachar
morrer
marcha fúnebre
ouvir pela
milésima vez.

Sorrir
sofrer
cantar
viver
ouvir broncas
receber
dar
amar
não ser amado
anoitecer em si mesmo
eu vou sem parar
sem cessar
sem sofrer sofrendo
sem querer ir vou.

Fingir alegre
viver triste
sina
maldição
vida
apenas assim sofrer
apenas assim
assim mesmo
como estou
como estarei
como estava
e não estava.

Chorar
chover
poças formar
águas formar
rios formar
mares formar
oceanos formar
apenas sofrer chorar
morrer
adoecer cantarolar
apenas viver morrendo
apenas morrer vivendo.

Músicas ouvir cantarolar
letras uníssonas sem razão
sem nenhuma razão
sem minha consciência
inconsciências
inconsciente
sofrido
sofrente
viver apenas
morrendo.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Minha Morte

Comi feito um elefante
bebi feito um alcoólatra
fumei como uma cobra
vivi como um condenado livre
morri como um miserável
me mataram como indigesto
me enterraram como indigente.

Vivi feito um maluco
em dúbias noites estreladas
festas ao anoitecer
alegrias errantes, bestas
doces melancolias
tropeços pela vida.

Morri feito ninguém
e ninguém nem soube
que eu mesmo morri
que eu mesmo virei
indigesto
indigente
indiferente para todos
indiferente para mim mesmo
apenas morri
apenas tive morte.

Mais uma Carta

Mias uma carta enviada
para longe
endereçada a ninguém
endereçada a todos
escrita poesias.

Mais uma carta para longe vai
segue viagem pelo mundo
passa de mão em mão
para lugar nenhum
mas para algum lugar
para ninguém
mas para alguém.

Uma carta para todos
escrita poesias
para ninguém
para todos.

Para aonde vai a carta?
E quem deterá ela?
E quem lerá ela?
Um segredo que nem eu sei
um segredo guardado tão bem
que só Deus sabe
as respostas para as perguntas.

Mais uma carta vai para longe
e para aonde eu não sei
sem endereços
sem endereçados
apenas com poesia
para ninguém
para todos.

Bailarina dos Balcãs

Vejo a doce bailarina
dos Balcãs
dançando esplendorosa
a tradicional música
de sua adorada terra.

Vejo suas roupas belas
sua beleza única
seus rodopios constantes
sua dança insistente.

Anestesiado pela música
pela bela vista da mulher
doce bailarina dos Balcãs
dançando como em nuvens
bailarina anestesiante.

E ela rodopia nos seus passos
bailarina doce dos Balcãs
a tradição musical de anos
e me deixa calado
anestesiado
morto por instantes
apenas amaravilhado.

Morte nas Ruas

Sangue vejo nas ruas
vidas mortas espalhadas
secas flores floridas
nas floreiras quebradas das casas.

E nas ruas multidões mortas
secas vidas amarguradas
destruição
matos amarelos nos asfaltos
musgo morto nas calçadas.

O tempo parado
ponteiros quebrados
pelo próprio tempo cansado
vivido tantos anos.

E o ponteiro marca
sete e quinze
a hora da dor
a hora da morte.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Viagem pela Mente

Viajo pela imensidão
da mente fantástica
de um ser humano
de uma máquina de pensar.

Vejo absurdos errantes
andantes de minha mente
tão mentirosa
fantasiosa.

Veraneios malucos
pelo louco inconsciente
ciente de que talvez
nunca voltarei.

Piadas non-senses
os sem-sentidos da vida
a sem vida da morte
os segredos irreveláveis
se revelam no momento
agora.

Vidas secas
vidas mortas
vidas morféticas morfina
vidas evidenciadas
pela própria vida morta
morrida
matada
amputada.

Vejo mortas flores
resistindo a vida inteira
pela morta vida
sonhos inesplicáveis
sonhos não vistos
esquecidos
não lembrados
não sonhados
pesadelos de monstros
bicho-papão
perdas.

Viajo pela mente
da máquina humana
imperfeitas das máquinas
defeituosa
destruidora
inacabada
surreal
destruída.