segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Funeral de um indigente

Lá se vai um indigente
vagabundo
sem parente
sem dinheiro
sem nome.

Lá se vai um morto
indo...
morto mesmo?
Morto de fome.

No improviso
caixão é a caixa
velas são apenas tocos
e sua coroa é de lixo
e seu café é a cachaça.

Seu carro funerário
a carroça de catar lixo
sua reza é em total silêncio
seus votos inexistentes
lá se vai mais um indigente
lá se vai mais um amigo meu.

Lá se vai mais um morto
mais um número indigente
mais alguém sem nome
sem vida.

Louco

Louco sou
sem questão fazer
sem nada fazer
apenas louco
sou.

Sou mesmo
o louco
da loucura total
e real?
O louco que grita louco
de tão louco que está?

Apenas louco! Louco!
Sim
mais um louco
pelas ruas vazias
de Curitiba.

Mais um louco rondante
pidoncho
louco.

Vivo a loucura
como louco que sou
nesta real loucura do sr.

Louco sou
na real realidade
como qualquer louco
mesmo que não seja mesmo
louco...

Louco desvarrido
vagabundo
a vagar por aí
louco moribundo
por aí a vagar.

Apenas mais um louco
na total loucura do ser
como qualquer louco existente
como qualquer louco
que nós mesmos somos
apenas mais um louco.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Almas Penadas em Luta

Vejo marchas de soldados
mortos
em fileiras indianas
com armas nas mãos.

Vejo sim
as almas penadas
de fardas e capacetes
com rosas nas mãos
ramas nas mãos
vidas nas mãos.

Vejo a grande mancha morta
dos soldados que vêm
acima de mim kamikases terríveis
e seus aviões.

Mortos querendo me pegar
para depois me fuzilar
almas sem vida
sem corpo
talvez almas do limbo.

Sem céu ou inferno
eles vêm para mim
com almas nas mãos
vidas nas mãos
armas nas mãos
rosas caídas
no chão.

Almas do Limbo

Almas do limbo
sem casa
sem vida
sem nada
almas do limbo.

Almas do limbo
almas do nada
sem vida
sem morte
sem coisa nenhuma
almas do limbo
sem dignidade.

Para onde vão
almas do limbo?
Para onde vão
almas puras?
Para onde vão
almas sem batismo?
Almas velhas
duras
sem vida
sem morte
almas do limbo.

Almas do limbo
sem história
sem cores
sem lugar nenhum
almas do limbo.

Almas do limbo
sem céu
sem inferno
sem lugar nenhum
não vivem e nem morrem
as almas do limbo.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Gira Mundo

Gira mundo
que quero girar
ver no que vai dar.

Gira mundo
que quero girar
tonto ficar
até vomitar.

Gira mundo
que quero morrer
de tanto girar
girar
de tanto morrer.

Gira tonto
que quero amar
girar até morrer
morrer de girar.

Gira mundo
que quero viver
sem parar de girar
até morrer e amar
e parar de girar.

Restos de Mim

Ainda resta o pó de mim
no velho tapete da sala
restos da cremação
guardados na urna violada.

Restos de mim
se espalharam
pela sala
nas paredes
no velho tapete
no resto do mundo.

Restos de mim
voando ao vento
pela ventana aberta
rumo mundo afora
restos de mim.

Lá se vai o pó meu
restos de mim
de cremação
de vida morrida
em pedaços
restos de mim.

Voando através da ventana
restos de mim
ganhando o mundo
como nunca
restos de mim.

Noite Velha

Noite velha
desconhecida
me envolve em seu manto
escuro
negro
de brilhantes
de perolados colares.

Noite velha
tão caminhante sobre mim
noite sem fim
protetoras de todos
os que saem a noite a farra
que fazem pirraça
que saem a noite
a se divertir
ou a esquecer.

Noite velha
seguidora dos aflitos
nobre amiga
dos desconhecidos
dos ladrões
dos bêbados e mendigos
dos amigos
de mim.

Noite velha
amiga de meus amigos
de meus inimigos
dos desaforados
loucos
embriagados
drogados
malditos
noite velha
amiga de todos
os que precisam
de amigos.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Indiferente

Sigo o rio indiferente
vendo a paisagem toda igual
verde
sempre verde
escuro
claro
médio
acinzentado
avermelhado
sempre aves
com ou sem asas
sempre água
poluída até o talo
possuída até na alma.

Verde é a mata verde
azul e branco é o céu de nuvens
tão indiferente isso para mim
tão indiferente os macacos
nas copas das árvores
comendo bananas
tomando conhaques
festejando a alegria
de mais um dia qualquer.

Tão indiferente
girafas no bar
elefantes no boliche
onças de all star
indiferente mesmo
até para mim
e para você.

Indiferente mesmo
mulas ouvindo rock
leões ouvindo Beatles
e a roda de burros
tocando samba.

Indiferente as árvores
com suas violas
seus bandoneões
harpas
violões
escaletas
tocando folk
numa praça de Nantes.

Indiferente mesmo
para mim ou para você
ver tantas coisas absurdas
no mundo do absurdo
que é o nosso
próprio mundo.

Amor Profundo

Vejo seu corpo
nú e fresco
seduzindo meu ser por dentro
me acalmando por fora.

Sinto o levantar da alma minha
subindo aos céus
e gritando "aleluia"
para que todos possam ouvir.

Você vem
como se nada quisesse
mas você quer
quer mais
do que eu mesmo posso dar
quer meu ser
minha alma
minha vida.

Em apenas um sussurro
você consegue tudo o que quer
e consegue ainda mais
em apenas um sussurro...

Sinto o devaneio
do amor profundo
atravessando a minha alma
atravessando o meu ser
o amor mais alto do mundo
sinto este amor
tão pornográfico
tão obsceno
tão profundo.

Sinto este amor
tão obsceno
mas tão profundo
tão bom
 que tudo eu lhe dou
sem titubear
sem nem mesmo
reclamar.

Corro para Esquecer

Na última estrada do mundo
corro
para perder a vista
para perder a memória.

Corro
para não lembrar
do que eu já esqueci
de tanto correr
em alta velocidade.

Corro
sem agora saber o porquê
mas corro
para não lembrar
o que devo esquecer
para esquecer
o que não devo lembrar.

Corro
para esquecer
o que eu mesmo já esqueci.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Condenação de Morte

Vejo fracas luzes de fim de vida
sinto o bruto cheiro de óleo
creio na substância de meu corpo
creio nos insetos
que irão me devorar.

Morri
percebo isso nos ossos
na carne
no sangue
na vida que já se foi.

Aqui jaz eu
num túmulo de pedra
algo deveras místico
algo deveras mágico
a alegoria de meu ser
da minha morte.

Ouço declamarem os versos
de minha penosa sentença
tantos pecados cometidos
tantos feitos sem glórias
tantas glórias fajutas
mentiras
sonhos
decilusões.

Não sabia que sonhar é pecar
não sabia que amar é pecar
não sabia que viver é pecar
só sabia que morrer é pecar
e epcar conttra a própria vida
e o espírito do ser vivido.

Ouço a última sentença
a sentença final
meu último pecado
e a minha condenação
condenado a morrer.

Cadeira de Balanço

Sonhos de verão
em uma cadeira de balanço
nove horas
da noite
do dia
o café frio de sempre
imaginação gelada de sempre.

Sonhos eternos
num sono nada eterno
dez horas acordar
o mundo real volta
como um sonho ou pesadelo
mal sonhados.

Noites e dias de verão
na cadeira de balanço
parados os dias e as horas
os sonhos e pesadelos
parados a viida e a morte
numa cadeira de balanço.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Olhos Doentios

Vejo
por entre esses seus olhos doentios
que o amor pode nascer
na mais bruta criatura.

Vejo
que mesmo os nervos
a mente
o corpo
doentios
são capazes de amar.

Vejo
que mesmo o mais monstruoso dos seres
podem sim amar
e vejo isso em seus olhos febris
de incondicional amor
de amor perfeito.

O Erro Perfeito

Em busca do meu mais belo pecado
vou dissecando a mente turva
de erros e pecados
e condenações.

Em busca do meu melhor erro
o erro perfeito
o erro sem nenhum erro
vou enlouquecendo
como poeta conservado em álcool
como álcool apodrecendo no corpo.

Acho erros imperfeitos
irreais
surreais
mas o perfeito erro não acho
em minha lembrança turva
tão podre
tão desacostumado com o bem.

Sigo pela minha própria mente
em busca do meu erro perfeito
do erro sem nenhum erro
de que eu mesmo cometi.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Três Minutos de Realidade

Três minutos de realidade
e percebo que caos é a vida
que a vida é um caos
ônibus, caros, gente, loucos!
O mundo é cão
nestes três minutos de realidade.

Três minutos apenas
de pura realidade doentia
três minutos de caos
de vida
de dor
apenas três minutos
de pura loucura mesquinhosa.

Três minutos de falta de ar
para me surpreender
nesta dura realidade da vida cruel
logo percebo meu caos
o caos do mundo real
o caos que não queria ver
ter.

Três minutos de realidade
é o que não quero mais ter
ver
sentir
viver
três minutos que quero apagar
para viver minha fantasia
tão bela afinal
a fantasia que deixei de sonhar
por apenas três minutos
de pura realidade.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Crime Perfeito

Vou caminhante
caminhando para o nada de meus olhos
indo onde ninguém vai
cometendo erros que ninguém faz
vou sem ninguém
sem alguém.

Sigo pela estrada turva
escura
o que ninguém segue
e que não existe
inexistente pela sua natureza.

sigo pela rua escura
luzes de postes desavergonhados
me espiam pelo caminho
luzes de condenações
me condenam
pelos crimes
crimes que cometi
sem saber
ter cometido.

Meus erros vejo
refletidos no asfalto negro
pelas luzes dos postes condenadores
ando acima dos crimes e erros
a procura do meu crime perfeito
ainda não cometido.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Anjos e Poetas

Anjos e poetas não tem sexo
apenas verdades irreais
mentiras verdadeiras
verdades nunca ditas
mentiras sempre faladas.

Anjos e poetas
seres iguais e diferentes
mas tão parecidos.

Poetas e anjos
falsos e verdadeiros
existentes ou não
depende da imaginação de cada um
pois tudo é falso e verdadeiro
até anjos e poetas.

Sonho Real

Se os sonhos são reais
como eu mesmo creio
então não devo sonhar
para viver a fantasia
do mundo real
que de real nada tem.

Mas se pesadelos mesmo existem
devo viver o meu bem real neste mundo
como um espectro de irrealidade suprema
como um caso anacrônico de sonho real.

Mas se o mundo me cobra o sonho de hoje
pago com os sonhos não sonhados
com os sonhos futuros e pretéritos
jamais vistos em minha doce e aguda mente
pois não é melhor ter um sonho real
do que viver numa realidade ilusória.