quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Paralaxe do Tempo Parado

E na paralaxe do indefinido
sinto o chão ceder como pó
como se fino fosse
sinto os pés voando
debaixo do ar poluído
das grandes mentiras.

Era o dia certamente
marcado no relógio quebrado
a tempos assim parado
o relógio do tempo arrasado.

Era o dia, sim senhor!
O dia sem juízo
sem nada a existir
o dia das horas paradas
malditas que fossem
essas horas paradas.

Na paralaxe do indefinido
me sinto flutuar no nada
como se o nada existisse
debaixo de meus pés
imundos que são
no dia parado
na hora marcada
no minuto arrasado
no segundo pingado
da real mentira da vida.

E na paralaxe do tempo parado
arrasado pelo próprio tempo corrente
que não pode correr mais
sinto-me voar no céu sem cor
que não é verde
nem branco, azul amarelo
nem negro
nem de cor nenhuma.

Sinto-me o tempo arrasado
pouco pingado no pulso de ninguém
pouco dito, pouco falado
na paralaxe da inconstância da mente
da minha própria mente.

E na paralaxe do tempo final
sinto-me o morto cabal
que esqueceu de morrer
por culpa do relógio parado
do relógio arrasado.

domingo, 17 de outubro de 2010

Entre o Céu e o Inferno

Era o sonho
do último dia de vida minha
num desespero esperado
da vida após a morte.

Numa interminável fila crescente
vejo-me mais um na fila dos condenados
a espera da sentença medonha
ir para o céu ou para o inferno?

Neste sonho tudo perdi
neste tudo perdi meus sonhos se foram
e nada mais penso em diante
pois nem sei se isso é mesmo sonho.

Sigo em frente interminável fila
para o dilúvio da eterna vida morta
sem razão sem coração
sigo.

Sigo para o desespero terreno
do último céu que fui
céu e inferno tão perto de mim
amor e sofrimento andando juntos
como se nada fosse real
sigo em frente
sem poder voltar.

sábado, 16 de outubro de 2010

Rosa Caída

A rosa cai
como a pétala de lágrima de amor
no soneto da última valsa
do amor mais triste do mundo.

Cai a rosa meiga
de espinhos amorosos
cai por terra ao chão
como pingo de chuva no coração
como a morte dentro do caixão
a rosa cai.

E o fim chega
com rosa caída ao chão
amargura no coração
como amor desfeito em pedaços largos
alargados pela própria dor
cai como a própria dor
do mais louco e puro amor.

Mas a rosa cai
como cai
nem eu sei
mas sei que a rosa cai
como gota de saliva
em boca mau amada
devaneios de passados amores
mau amados assim mesmo
cai a rosa morta ao chão.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Eu não vivi

Segredos não guardei
amores não amei
a vida não vivi
e a vida foi um caos
e o caos foi minha vida.

E pelas noites saltimbancas
cantei
dancei
chorei
morri
como deve um ébrio
como deve o lunático
o doido
o fora-da-lei
injustiçado
amaldiçoado
assim o fiz.

Eu não vivi
pois outras coisas fiz
antes mesmo de viver
antes mesmo de me ver morto
dentro de um caixão
indo para a terra mãe de todos
onde flores virarei.

Eu não vivi
nem mesmo os minutos pingados
em meu próprio pulso
não quis viver
pois estava mais ocupado
com as coisas alegres.

Eu não vivi
para dizer morri
para morto me ver
mesmo agora
me vendo morto
no caixão.

Enfim
não vivi até o fim
para dizer se me arrependi
ou se gostei
só sei que assim
vivi.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Doce Amada

Quero beijar essa sua boca escura
sentir o odor de tua boca
e amar inconscientemente
esse louco amor.

Quero apenas amar
esse corpo que cintila
o corpo nu de pessoa
que tu és sem perceber.

Mas quero escarrar
na boca dos que te beijam
matar os que te abraçam
enforcar os que te amam
pois isso sim é amor
tão louco e cruel
tão terno e quente.

Quero impor minhas ordens
de acordo com suas ordens
quero te amar eternamente
mesmo que nada dure o amor
quero sorrir em teus olhos
mesmo eu estando triste
quero sofrer calado por você
quero apenas te amar tantas vezes.

Seria capaz de guerras decretar
de fazer loucuras sem noção
de contestar qualquer divino
por você
apenas você
minha doce amada
que não a tenho.

Sou Escuridão

A menos que não aja luz
eu sou a escuridão
plena e carinhosa
terna e melindrosa
sem medo de abraçar.

Envolvente como sou
posso beijar
sem ninguém perceber
e escarrar
sem ninguém sentir.

Pois penumbra segura sou
que afugenta e apazigua
aquieta corações e almas
e ama eternamente
até os inconscientes.

Pois apenas sou
aquele que não se pode ver
mas que se pode sentir
mas que se pode amar
a escuridão.