domingo, 28 de fevereiro de 2010

Troca de Olhares

Ela olha
ele olha
longe ambos
um do outro
outro do um.

Mas ela olha firme
mas ele olha assustado
será amor será vida
será besteira será dor?

Ele olha ela olha ele
sem muito entender
um do outro
outro do um
mas ela olha ele olha ela.

Mas só sei
que ele olha ela olha ele
que ele olha ela olha eu.

Café da Manhã

Sentou-se na cadeira
pôs-se a comer
pão com ovos
café com leite
jornal na TV.

Deu-me dicas de vida
deu-me vida de novo
mandou-me largar-me
das coisas vãs
daquela tal poesia.

Deu-me café
deu-me leite
deu-me pão com ovos
deu-me toalha
para o rosto limpar.

Deu-me uma coisa
medalhão
disse-me
em único
largue a gramática
e seja livre.

Deu-me um sopapo
me deu uma lição.

Reclamações

Quando não há poesia
reclamam!
Quando há poesia
reclamam!

Mas porquê reclamar
quando chuva
quando sol?

Mas reclamam por tudo
esse tal povo
dos hebreus
dos malucos.

Reclamam
reclama
reclama!

E eu também
vou reclamar!

Canção da morte viva

Vão os morto e os caixões
sobram gente dessa terra
voam os urubús do cemitério
gralham os corvos revoantes.

Cante a vã poesia mortuária
pois um dia há de precisar
cante a canção dos mortos
cante a canção última.

Façam o que digo sempre
cantem a última canção
a canção dos mortos vivos
a canção dos vivos mortos
pois todos nós somos vivos
pois todos nós somos mortos.

O mundo é um cemitério
tetricante sempre assim
o mundo é o inferno
sendo sempre ruim assim.
Pois quem canta
seus males espanta e outras coisas também
mas eu canto sempre
e gosto de cantar (mesmo desafinado)
mas eu canto e eu espanto e arrebento.

Mas eu canto como rouxinol
mas tento cantar como urubú cantador
mas eu nem sou urubú mas eu nem sou rouxinol
mas eu nem tomo tilenol.

Sou poeta e pretendo ser sempre
ou morrer assim poeta poetado
mas eu sou poeta e eta se me criticar
e eta se me avacalhar!

Sou poeta e tento cantar e tento...
tento... tento tanto tanto que tento
mas não consigo cantar!

Perguntas

Quem?
Como?
Onde?
Sempre perguntas
que não querem calar.

Quem matou?
Quem morreu?
Quem foi?
Quem voltará?

Como foi?
Como está?
Como estava?
Como ficou?

Onde parou?
Onde ficou?
Onde caiu?
Onde morreu?

Perguntas
apenas perguntas
que não querem calar.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Sou Um Elefante

Oi! Sou um elefante
eu ando pelo mundo
e balança minha tromba
pois sou um elefante.

Sou grande e forte
e tenho tromba
dentes de marfim
bebo muita água
e sou um péssimo
animal de estimação
pois sou um elefante.

Dizem que sou paquiderme
mesmo sem eu saber
o que isso significa
pois sou um elefante.

Dizem que meus dentes
valem ouro, muito ouro
mesmo eles não feitos disso
com eles fazem:
sapatos
acessórios
enfeites
colares
e teclas prá piano
uma coisa que
nem sei o que é
nem prá quê serve
mas fazem isso.

Dizem até mesmo
(vejam só que audácia!)
que um elefante
incomoda muita gente
e que dois elefantes
incomodam muito mais
(eu discordo!)

Comem minha carne
costuram meu couro
e fazem jaquetas dele
ou então sapatos.

Sou um elefante
mesmo não parecendo
mas acreditem!
Eu sou um elefante
e espero sempre ser assim!

Minh'alma

Pois minh'alma é de vento
e ela voa por aí afora
e acaso alguém encontrar
diga para ela voltar.

Pois minh'alma é de cinzas
e ela faz muito espirrar
quem por ela espirrar
avise ela prá correr.

Pois minh'alma é de pimenta
e ela arde mesmo até o talo
e quem por ela sentir ardência
diga a ela prá fugir.

Pois minh'alma é de cetim
e quem nela se encostar
não tenha medo, não
cetim é tecido nobre.

Pois minh'alma é de poesia
e disso ela vive bem
e quem poetar com ela
saberá como fazer poesia.

Pois minh'alma é de banana
e ela previne câimbras
e quem ela comer
verá que macaco não é.

Pois minh'alma é de amor
e por isso ela sofre
e quem por ela se apaixonar
corra! Ela não merece tanto amor.